Coluna Djalma Dilton
As invisíveis crianças que habitam as ruas da nossa sociedade são as verdadeiras sombras do nosso cotidiano. Suas vozes não ecoam, são sufocadas e perdidas entre o barulho das buzinas e o ritmo acelerado das vidas alheias. Ignoradas como se não fossem parte do mesmo torrão, este solo fértil que deveria ser um berço de oportunidades. No entanto, vivem como seres irreconhecíveis e desumanizados, vítimas dos maus tratos que a vida lhes impôs que marcam sua infância.
Em sua dura realidade, aprendem a aceitar a indiferença ao seu redor como se fosse normal. Acostumadas à brutalidade da rotina, aprenderam não chorar. É marcada pela falta, pela penúria e, muitas vezes, pela dor silente. Nos cruzamentos movimentados, aproveitam-se dos veículos parados diante dos semáforos. Suas mãos humildes, estendidas, sinalizam carência e desespero, nas suas solicitações nem sempre atraem olhares solidários, mas, para muitos, esses pequenos gestos continuam invisíveis.
As vistas se desviam, corações se endurecem, e a fome que geme nas barriguinhas vazias é abafada pelo silêncio de quem ignora a dor e os sofrimentos estampados em seus rostos, encobertos pelo ruido da indiferença. Como pode alguém avaliar tamanho desalento sem ter passado por circunstâncias iguais?
As discriminações sociais vão além da aparência física; elas se manifestam nas vestes rotas, no tom da pele, na condição de estar sem teto ou ser mais um morador de rua. São vidas que, tragicamente, se tornam dados estatísticos, sepultados pelas balas perdidas ou pela injustiça de um sistema incapacitado em protegê-las. A sociedade, numa cumplicidade silenciosa finge ignorar a miserabilidade que permeia o "pobre país rico."
Observa-se a frieza do egoísmo e da desumanização. Enquanto isso, religiosos que deveriam ser faróis de esperança, se voltam para a teoria da prosperidade, utilizando a fé como um meio para acúmulo de riqueza pessoal do que ao bem-estar coletivo. Os gananciosos mega produtores se impõe limitando o crescimento nacional. Estes que escapam das amarras fiscais, preferindo jogar ao lixo fartos produtos alimentícios, o que poderia alimentar milhares de bocas famintas, perpetuando um ciclo de miséria que assola os mais vulneráveis.
É uma ironia cruel daqueles que se proclamam patriotas sejam autênticos hipócritas, amantes de si mesmo, são na verdade, os verdadeiros inimigos dos seus próprios irmãos. O apocalipse social está diante dos nossos olhos com a reflexão que ecoa: "Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta, e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego e nu" (Apocalipse: 3,17)"
Essas palavras continuam ecoando como um alerta sobre a cegueira que nos consome.
A pobreza deste país se manifesta através do "luxuoso" ato de arrancar migalhas das bocas sedentas; e, enquanto continuamos a ignorar essas crianças invisíveis, perderemos a capacidade de ver o que realmente importa; a humanidade que, em sua essência, nos torna iguais. Que possamos despertar para a realidade ao nosso redor, pois a transformação começa pelo reconhecimento do outro, pela escuta ativa e pela luta contra a indiferença e desigualdade. Somente assim, num dia não tão distante, poderemos afirmar que somos, de fato, um país livre, justo e humano.
A pobreza deste país se manifesta através do uso escandaloso do dinheiro público revelando a degradação moral que permeia a política: que mantém o país como refém dos seus desejos pessoais e não aprovarem as emendas que trazem benefícios promissores a quem de direito e obrigação. São blindados por foro privilegiado, pensão vitalícia, orçamentos secretos, auxilios de todas as espécies, da gravata ao papel higiênico, na busca da limpeza das suas necessidades, dos estrumes e odores deste sistema repugnante, que pairam no ar, em torno de 24 milhões por ano, com cinismo "patriótico!"
Lembrando-nos da sujeira deixada nas instituições que deveriam representar a ética e a justiça. É possível vislumbrar um futuro promissor, onde verdadeiros políticos emerjam para ocupar seus lugares legítimos, erradicando de uma vez por todas como se fossem cupins, em formato de gente, os politiqueiros e suas politicagens. Um futuro no qual a dignidade, o respeito e a verdadeira liderança sejam os pilares que sustentam uma sociedade justa.
Sejam eliminados dos cargos públicos os falsos patriotas, os líderes religiosos que usam o nome de Deus em vão. Que os falsos mitos e heróis de "bolhas" sejam desmascarados, para que as invisíveis crianças possam finalmente ser vistas e ouvidas. Resgatadas com direito à vida, com amor, respeito e dignidade, em mundo que lhes deve muito mais do que simples olhares de compaixão.
Djalma Dilton é escritor, poeta, compositor e cantor. Membro da Academia Brasileira de Artes Integradas. Ex-jogador do Bahia de Feira nos anos 1960 a 1962.