sábado, 4 de julho de 2026

Biribinha: “Eu gostava mesmo era de jogar bola, era o que eu queria"

Coluna Zadir Marques Porto 

Um dos melhores atacantes surgidos no futebol de Feira de Santana - poucos chegaram próximo ao seu futebol -, o ponta-esquerda Biribinha passou por grandes clubes brasileiros como Santos, Fluminense e Vasco, jogou nos Estados Unidos, México e Chile, fez parte dos Novos Baianos, mas jamais demonstrou apego ao dinheiro: ”Da vida nada se leva, eu gostava mesmo era de jogar bola, era o que queria!” Biribinha faleceu no dia 9 de janeiro, sem queixas, sem tristeza, como sempre viveu.            

O modo quase irregível, que escondia a pureza dos sentimentos, era sua marca pessoal. Nada de tipo criado para aparecer na mídia como fazem alguns famosos. Gilmar Luís de Santana nasceu assim e assim permaneceu. Talvez tivesse muito de seu pai, o zagueiro pernambucano Decadela (Manoel Luís de Santana) que veio para o Fluminense  em 1955,   quando o tricolor, que havia ingressado no profissionalismo um ano antes (1954), trazia bons reforços do futebol nordestino como: Borracha, Gilberto Weyne, Mangaba, Zé de Melo, Ninoso, Charuto , Elias, Paraíba I, Paraíba  II  e o mineiro Geraldo Pereira, que atuara em Pernambuco.

Gilmar Luís de Santana veio para a cidade princesa com menos de um ano de idade e aqui se popularizou como Biribinha, apelido que ganhou ainda guri, pelo futebol semelhante ao de Biriba, ponta-esquerda titular do Bahia de Salvador, nos anos 60, jogador rápido e driblador, difícil de ser marcado. Nas peladas no Campo do Horto e do Tanque da Nação o menino veloz, inquieto, de chute forte com o pé esquerdo, infernizava os zagueiros que tinham de ‘apelar’, o que não intimidavam o filho de Decadela, estimado pelo atacante tricolor Antônio Luiz, que era como um tio para ele.

Quando a bola de couro não estava rolando ele recorria às bolas de gude para brincar com os amigos nos canteiros da Praça da Catedral.  Muito mais bola do que escola na infância. Na verdade, ‘o planeta Terra é uma grande bola a girar no espaço, e nossa vida também’, observava.    Em visita ao pai Decadela, em Santos, São Paulo, Biribinha conheceu outro garoto bom de bola como ele, com algumas diferenças: o santista era destro e seu pai tinha uma adega! Assim amigos, iam ‘acabando’ com as peladas na praia e, também, com  as deliciosas canecas de vinho, Osni e Biribinha foram parar no juvenil do Santos Futebol Clube.

Desinibido, logo era amigo de Rildo, Clodoaldo, Manoel Maria, Picolé, Douglas, Negreiros, Edu e outros titulares do time peixeiro. Ernesto, técnico do time juvenil, entusiasmado com  futebol de Baiano como era tratado no Santos, indicou-o ao Fluminense, certo de que no Rio de Janeiro, o garoto se daria melhor.

No tricolor das Laranjeiras era titular do time juvenil treinado pelo ex-zagueiro Pinheiro, considerado duro e disciplinador. Apesar de garoto, Baiano fez rápida amizade com Cafuringa, Carlos Alberto Pintinho, Abel Braga, Carlos Alberto Torres, Didi, Wilson, Ananias, Marco Antônio, e outros titulares do pó de arroz das Laranjeiras. A velocidade, o drible, o destemor no momento de enfrentar jogadores experientes, chamavam atenção da diretoria do Fluminense que já olhava Biribinha, como o futuro camisa onze do tricolor e isso fazia Pinheiro ficar ainda mais atento diante das peripécias do garoto.

O técnico não admitia que um juvenil seu,  assim ele considerava a garotada, chegasse à sede um minuto depois das 23 horas. Aos sábados, após os jogos do campeonato carioca de juvenis, realizados na parte da tarde, a molecada desaparecia, mas podia ser encontrada facilmente  nas rodas de samba. Num desses sábados o atraso foi alongado e resultou em sério problema para alguns, principalmente o Baiano!

Chegando à sede, portas fechadas, sem acesso, o plano foi rápido ‘alguém pula a janela, pega a chave, abre a porta e todo mundo entra, tudo certo’. Mas quem iria pular a janela? Só podia ser o Baiano e foi.  Sem medo de nada, Biribinha escalou a janela e pulou, caindo em cima de algo grande e macio. Seria um urso de pelúcia? Podia ser só que bicho de pelúcia não grita ‘Ai minha barriga‘. Desconfiado da molecada tricolor, o técnico Pinheiro resolvera dormir na concentração, bem debaixo da janela! Resultado, banido do Fluminense, apesar das amizades e do futuro promissor. A barriga de Pinheiro era intocável!

O Vasco já andava de olho no atacante baiano, e das Laranjeiras para São Januário foi um pulo.  Na colina, melhor acolhida não poderia ter: Roberto Dinamite, Gaúcho, Pastoril, Mazaropi, Guina, Paulinho,  Luís Fumanchu, Neném, Marcelo, Brasília  (goleiro que depois atuou no Fluminense de Feira) faziam parte do elenco do clube Cruz de Malta   que foi tricampeão carioca juvenil (1971/1972/1973). Biribinha colocou a faixa e firmou amizade indestrutível com o saudoso Roberto Dinamite. Mas a falta de juízo fê-lo, sem motivo algum, quebrar várias camas do alojamento.

Assim, como acontecera nas Laranjeiras, São Januário tornou-se ‘território proibido’ e para rever os amigos ia de automóvel com Marco Antônio e Paulo Roberto até à praia de Ipanema, tomar chope e comer passarinha no Barril 1800, um point da moda, esperar o fim do treinamento e a saída da rapaziada que já sabia onde encontrá-los. Desse período Biribinha estabeleceu forte amizade com os craques Roberto Dinamite, Marinho Chagas,  Afonsinho e Brito, João Nogueira e Cazuza, esses dois do mundo musical.

Em 1974, Biribinha resolveu reviver os tempos de menino e participar da Festa de Santana, principalmente da parte folclórica ou profana a  Lavagem da Igreja e da Levagem da lenha. Coincidentemente o Flamengo veio à cidade princesa para um amistoso com o Fluminense e, para o azar do lateral carioca Alcione, Biribinha entrou em  campo com a camisa onze do Touro. O atacante feirense ‘entortou’ Alcione literalmente a ponto do técnico rubro-negro, Aristóbulo  Mesquita  exclamar:  “O que é que esse rapaz faz aqui. Quero ele amanhã na Gávea!”.

No Rio de Janeiro novamente, e mesmo com Zico que já conhecia a ‘fama’ do baiano, assim como o atacante Rui Rei alertarem, Aristóbulo Mesquita pediu a contratação imediata de Biribinha que, a essa altura, já tinha contratos assinados com o Vasco da Gama e o Fluminense de Feira. Flamengo e Vasco tentaram uma solução. O técnico rubro-negro Walter Miraglia,  que era conciliador,  propôs a ida de Biribinha para o Marília de São Paulo, como uma medida intermediária. Tudo certo Biribinha pediu luvas e um Karma Gia para assinar contrato.

O Marilia aceitou, mas na hora de fechar o contrato, resolveu oferecer um automóvel de outra marca. Nada feito! Com 20 anos o atacante feirense resolveu abandonar o futebol para integrar a banda Os Novos Baianos, ao lado de Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Morais Moreira, Gato Felix e Galvão. Assim surgiu o time Os Novos Baianos Futebol Clube. Durante dois anos Biribinha viajou como o grupo musical e ganhou do amigo Pepeu Gomes o chorinho “Biribinha nos States” depois  regravado em ritmo de jazz em Montreal, Canadá, durante show de Walter Davis.

Nessas Idas e vindas em 1974 Biribinha estava no Fluminense de Feira, quando o saudoso Renato (Renato Costa Azevedo), autor do gol que deu o titulo de Campeão Baiano ao Fluminense em 1963, então atuando no futebol dos Estados Unidos veio à Cidade Princesa para levar o atacante Paulo Roberto, indicado por Barbosa, da loja A Elegante, mas se encantou com o camisa onze que ele não conhecia. ‘Barbosa quem é o camisa onze?’ questionou Renato, e  mesmo com a resposta obtida ‘aquele é o maluco do Biribinha’, Renato Costa foi objetivo: ‘Quero aquele ponta, que você diz  que é maluco!’.  

Biribinha foi titular durante três anos do Thunder, em San Antônio do Texas, ganhando excelentes salários e do mesmo modo gastando sem a menor preocupação. Depois jogou no México, no Chile, no XV de Novembro de Piracicaba de São Paulo, parou de jogar em 1979. Voltou ao Chile como treinador do San Luiz, recebeu convites de outras equipes, todavia resolveu ficar mesmo na Terra de Senhora Santana, ao lado da família. Chegou a treinar por pouco tempo o Bahia de Feira, mas preocupava-se também com a carreira do filho, o excelente meia Bel, profissional que  passou por vários clubes brasileiros e fora do país como o Boca Juniors da Argentina, mas parou muito jovem.

Há dois anos por conta de uma doença, Biribinha sofreu uma amputação, mas jamais mudou sua personalidade. Continuava alegre, brincalhão, conversando com os amigos com a mesma eloquência. Há pouco tempo havia sido homenageado pela Liga Feirense de Futebol e quando alguém questiona seu sucesso no futebol e como poderia estar se tivesse controlado sua vida financeira, ou como se diz ‘não tivesse jogado  fora o que ganhou’, ele ria e filosofava com simplicidade: ‘Da vida nada se leva. Eu gostava mesmo era de jogar bola, jogar bola para mim era tudo!’.

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Coleção histórica de um feirense

Coluna Zadir Marques Porto 

Ele foi até um bom lateral pela direita no time juvenil que era treinado por Gilson Porto, no bairro Sobradinho, e tinha tudo para seguir no Fluminense, mas preferiu ir trabalhar no ramo farmacêutico, sem esquecer o futebol e o tricolor. Assim, é comum vê-lo com a camisa do Touro e nos jogos do tricolor, ele é presença obrigatória no Joia da Princesa, embora também tenha suas simpatias pelo E.C. Bahia. Pedro Nunes da Silva Neto se deixou de correr atrás da bola, jamais deixou de segui-la nas transmissões de rádio e TV e em jornais e revistas.

Assim, hoje é detentor de uma coleção da Revista Placar, especializada em esportes com 1.548 edições. Embora faltem alguns números que ele não conseguiu adquirir, descarta a possibilidade de se desfazer dela. Pretende,  sim, conseguir as poucas edições que faltam para considerá-la completa. Reclama, no entanto, que nos últimos  meses algumas edições não tem chegado a esta cidade já que a distribuidora está sediada  em Vitória da Conquista.

Extremamente zeloso com a coleção, Pedro Nunes espera concluir as obras de sua residência, no bairro Jardim Cruzeiro, que terá uma sala especial no andar superior para a Revista Placar. No momento as 1.548 edições estão bem acondicionadas em caixas de isopor apropriadas esperando a transição.  Ressalta que embora tenha começado a coleção na década de 1990 adquiriu grande parte das edições anteriores  da revista a um desportista que, como ele, também é colecionador. Para quem gosta de esportes, em especial o futebol, a revista é um verdadeiro manancial de informações e muito democrática, na opinião dele:

“A Placar fala sobre seleções e grandes clubes, mas também focaliza pequenas agremiações, algumas absolutamente desconhecidas do grande público’’ .  Pedro Nunes destaca que há edições imperdíveis, como as que trazem matérias sobre a Copa do Mundo e o Título Nacional do Bahia em 1988, dentre outras. Há, ainda, uma matéria sobre o Fluminense de Feira, então considerado ’O Santos do Nordeste’. A mais valiosa diz ele, é a edição número um, tendo na capa uma fotografia de Pelé,  avaliada em cinco mil reais

Todavia, chama atenção para uma matéria sobre a quase vinda de Zico para o Fluminense. “Walter Miraglia, técnico do Fluminense, era funcionário do Flamengo. Ele levou o Touro para um amistoso na Gávea, quando foi definida a vinda de vários jogadores que foram Campeões Baianos de 1969 e dentre os oferecidos, para ganhar experiência, estava Zico, mas um dirigente do Fluminense teria dito que ele era ’mirrado’(muito magro). Assim, Zico não veio para Feira de Santana, é o que está na Revista Placar”, conclui Pedro Nunes.

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Editorial: Muito mais que futebol: Reflexão necessária!

Uma Copa do Mundo com verdadeira   característica de um evento mundial, não  apenas pela sua abrangência territorial - reunindo  seleções  de 48 países, número jamais atingido anteriormente -, e o modal das disputas que ocorrerão em três países do Continente americano, o que também é inédito na história desses jogos. Todavia, há outros itens que estão fora dos 110  x 75 metros estimados de um campo de futebol, mas que podem influenciar, decisivamente, no espírito da competição e isso pode ser visualizado em outro campo: o  geopolítico.

O Planeta vive mais um ciclo de guerras e doenças, com profundo agravamento da fome, apesar do crescimento da produção mundial de  alimentos. As mudanças climáticas, a veloz robotização e a expressa utilização da Inteligência Artificial, propõem mudanças que não são de fácil assimilação por grande parte da população notadamente pela rapidez como elas se processam. E tudo isso acontece longe do tempo do futebol ‘romântico’,  quando a preocupação do atleta - que não ganhava salários bilionários -,era mostrar técnica e habilidade no gramado e a do torcedor vibrar, rir, chorar, se emocionar com o espetáculo.

Assim, a exemplo de uma eleição politica, que ocorre de quatro em quatro anos, o brasileiro  está as portas da Copa do Mundo, cheio de dúvidas em relação à seleção, formada por atletas nossos,  mas  alguns praticamente desconhecidos já que atuam no exterior e dirigidos por um  técnico estrangeiro.  O insucesso dos ‘canarinhos’ que há bom tempo não conseguem cantar com maestria, preocupa grande parte da população. Mesmo assim ela ainda se mobiliza decora ruas, pinta paredes, grava  músicas, promove eventos e veste a camisa amarela, externando uma confiança, nem sempre verdadeira, mas necessária como prova de patriotismo. Para os que gostam do futebol - aqui e alhures -, e independente de tudo, é manter a contagem regressiva, esperando a bola rolar em clima de paz, respeito e segurança, sem o que não há razão para o esporte!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ichu ganha Arena Renatão

Coluna Zadir Marques Porto 

O futebol na cidade de Ichu, região do sisal,  deve voltar a mobilizar a comunidade a partir do dia 29 deste mês com a reinauguração   do Estádio  Renato  Mascarenhas Cedraz, ex-prefeito local já falecido. O antigo estádio construído em uma área de topografia irregular, totalmente modernizado pelo Governo do Estado, contando agora com gramado sintético, vestiários para atletas e arbitragem, cabines para emissoras de rádio e TV, além de moderna iluminação para jogos noturnos.

O Campeonato Municipal e a participação em Copas regionais projetaram o futebol lchuense, em especial nas décadas de 1980/1990 quando existia o São José F.C. do jornalista Pedro Oliveira. Incentivador do esporte ele promoveu jogos no antigo estádio, que possibilitaram ao público ver em ação jogadores como Roberto Rebouças, Rau, Baiaco, Sivaldo, dentre outros. Ele também promoveu homenagem ao árbitro da Federação Bahiana de Futebol (FBF), Djaime Nabor Sampaio, na época aposentando-se da atividade.

Com as obras implementadas pelo Governo do Estado que incluíram a modernização das arquibancadas, do alambrado e das duas entradas, além da implantação da sala de imprensa, a Arena Renatão, com já está sendo chamado o estádio ichuense, deverá ter significativa importância na vida da comunidade, uma vez que além do futebol poderá ser local para a realização de shows  artísticos e outras programações que necessitem de um espaço compatível.

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

terça-feira, 17 de março de 2026

Reacendem-se as chamas da esperança!

Coluna Zadir Marques Porto 

Com cerca de 660 mil habitantes - população fixa -, e mais de um milhão levando-se em conta a presença diária de moradores da sua ampla região  metropolitana, Feira de Santana vive o desencanto de não contar com um clube na primeira divisão do Campeonato Baiano de futebol, com o imprevisto e impensado rebaixamento do Bahia de Feira, Campeão Estadual de 2011. No entanto, a proximidade do Campeonato da segunda divisão, com o inicio definido pela FBF para o mês de maio, faz torcedor feirense olhar o futuro com uma  previsão menos sombria.

O Fluminense, duas vezes Campeão Baiano - 1963/1969 -, e detentor da terceira maior torcida  do estado, mais uma vez tentará o retorno à primeira divisão. Ao seu lado, representando a Princesa do Sertão, estará o Feira Futebol Clube,  recém-fundado e ainda desconhecido do torcedor local. Foi anunciada ainda a participação do Feirense Futebol Clube, que já disputou a divisão principal do futebol baiano, mas o fato não se confirmou.

Segundo maior entroncamento rodoviário do país e maior comércio entre todas as cidades do interior do Norte/Nordeste, Feira de Santana vem chamando atenção nos últimos anos pelo declínio na área esportiva, em especial no futebol, tanto amador como profissional. Mas agora, reacendem-se as chamas da esperança, com o Fluminense e o Feira. Os mais otimistas fazem planos de vê-los na primeira divisão em 2027 e já imaginam um novo clássico local : Fluminense x Feira Futebol Clube!

 

         Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Gabriel Saraiva - O melhor rádio-escuta do País - Teria sido um anjo?

Coluna Zadir Marques Porto 

Gabriel Saraiva - Acervo Pessoal

Não tinha asas nem poderes sobrenaturais, mas tinha ouvido e memória incomuns e um coração repleto de bondade. Foi o melhor rádio-escuta do País e um amigo para jamais ser esquecido. Alguns o chamavam de ‘ Anjo Gabriel baiano’.

Gabriel Frederico Castro Lima Simas Guerreiro Saraiva (1926-2022). Por esse pomposo e quilométrico nome poucos irão identificá-lo, até mesmo lembrar o ‘ouvido de ouro’ ou para ser mais direto, o melhor plantonista esportivo do rádio brasileiro.  O soteropolitano de Itapagipe, Gabriel Saraiva, apaixonado pelo Botafogo de Futebol e Regatas, professor primário e funcionário do Tribunal de Justiça da Bahia, um ser especial - um homem ímpar -, que enriqueceu o ambiente onde viveu e trabalhou com a sua inteligência, pureza e cordialidade.

Como craque de bola o surgiu no Ypiranga, mas aos 18 anos não pode seguir, a medicina o aconselhou. O rádio esportivo foi a sua opção. Começou na Cultura da Bahia, depois esteve nas rádios Cruzeiro, Excélsior e Sociedade desenvolvendo um extraordinário trabalho de rádio-escuta numa época difícil, em termos técnicos, utilizando-se basicamente de um receptor Philco, nove faixas, papel e caneta. Jamais fez uso de um gravador. Foi colaborador de jornais como A Tarde, onde tinha o amigo Genésio Ramos, editor de Esportes e narrador esportivo.  Mas era amigo de toda a crônica esportiva.

Era preciso na informação e conseguiu registrar vários ‘furos’. Um deles foi informar a morte do jornalista Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, quando nem os funcionários das empresas do DA sabiam. O árbitro Clinamute França, alertado pelo narrador da Rádio Sociedade, José Ataíde, decretou o respeitoso ‘um minuto de silêncio’ no antigo estádio da Fonte Nova, mas a informação foi colhida e passada em ‘primeira mão’ por Gabriel Saraiva.

Ouvido extremamente apurado era capaz de identificar alguém pela voz, sem jamais tê-lo conhecido pessoalmente, bastava para isso  ouvi-lo uma vez. Ainda garoto assistiu um amistoso do Botafogo no extinto Campo da Graça, tornando-se para sempre alvinegro. Jamais abdicou de um escudo do Glorioso na lapela. Também torcia pelo Bahia,  mas nada comparável ao que sentia pelo alvinegro carioca. Admirado e respeitado  no Tribunal de Justiça da Bahia, pela sua dedicação e integridade, Gabriel Saraiva foi personagem de diversas reportagens, entrevistas e do livro ‘A História de um Rádio-escuta’, do jornalista Oleone Coelho Fontes publicado na década de 1970.

Em janeiro de 1990 o centenário jornal Folha do Norte (117 anos) de  Feira de Santana, publicou  em página inteira ‘O Amigo do Rádio’, brilhante  reportagem de autoria do jornalista Marcelo Augusto Fonseca, relatando a história do lendário itapagipano. A matéria foi alvo de elogios e parabéns de muitos leitores, inclusive do grato e emocionado Gabriel Saraiva. Sem sermos exatos, foram cerca de cinco décadas de trabalho no rádio esportivo baiano desse fiel torcedor do Botafogo e devoto de São Roque e São Lázaro que foi casado com a senhora Noélia de Assis Lima e pai de Manoel Frederico e José Gabriel. O fato de desportistas das mais recentes gerações  pouco, ou até mesmo nada saberem sobre Gabriel Saraiva, falecido em 31.01.2022, é compreensível. Todavia isso não nos é permitido,  ou não podemos nos permitir a isso, como ele não se permitiria  se estivesse em nosso lugar! Saudades, professor!

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

Biribinha: “Eu gostava mesmo era de jogar bola, era o que eu queria"

Coluna Zadir Marques Porto   Um dos melhores atacantes surgidos no futebol de Feira de Santana - poucos chegaram próximo ao seu futebol -, o...