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sábado, 17 de janeiro de 2026

Gabriel Saraiva - O melhor rádio-escuta do País - Teria sido um anjo?

Coluna Zadir Marques Porto 

Gabriel Saraiva - Acervo Pessoal

Não tinha asas nem poderes sobrenaturais, mas tinha ouvido e memória incomuns e um coração repleto de bondade. Foi o melhor rádio-escuta do País e um amigo para jamais ser esquecido. Alguns o chamavam de ‘ Anjo Gabriel baiano’.

Gabriel Frederico Castro Lima Simas Guerreiro Saraiva (1926-2022). Por esse pomposo e quilométrico nome poucos irão identificá-lo, até mesmo lembrar o ‘ouvido de ouro’ ou para ser mais direto, o melhor plantonista esportivo do rádio brasileiro.  O soteropolitano de Itapagipe, Gabriel Saraiva, apaixonado pelo Botafogo de Futebol e Regatas, professor primário e funcionário do Tribunal de Justiça da Bahia, um ser especial - um homem ímpar -, que enriqueceu o ambiente onde viveu e trabalhou com a sua inteligência, pureza e cordialidade.

Como craque de bola o surgiu no Ypiranga, mas aos 18 anos não pode seguir, a medicina o aconselhou. O rádio esportivo foi a sua opção. Começou na Cultura da Bahia, depois esteve nas rádios Cruzeiro, Excélsior e Sociedade desenvolvendo um extraordinário trabalho de rádio-escuta numa época difícil, em termos técnicos, utilizando-se basicamente de um receptor Philco, nove faixas, papel e caneta. Jamais fez uso de um gravador. Foi colaborador de jornais como A Tarde, onde tinha o amigo Genésio Ramos, editor de Esportes e narrador esportivo.  Mas era amigo de toda a crônica esportiva.

Era preciso na informação e conseguiu registrar vários ‘furos’. Um deles foi informar a morte do jornalista Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, quando nem os funcionários das empresas do DA sabiam. O árbitro Clinamute França, alertado pelo narrador da Rádio Sociedade, José Ataíde, decretou o respeitoso ‘um minuto de silêncio’ no antigo estádio da Fonte Nova, mas a informação foi colhida e passada em ‘primeira mão’ por Gabriel Saraiva.

Ouvido extremamente apurado era capaz de identificar alguém pela voz, sem jamais tê-lo conhecido pessoalmente, bastava para isso  ouvi-lo uma vez. Ainda garoto assistiu um amistoso do Botafogo no extinto Campo da Graça, tornando-se para sempre alvinegro. Jamais abdicou de um escudo do Glorioso na lapela. Também torcia pelo Bahia,  mas nada comparável ao que sentia pelo alvinegro carioca. Admirado e respeitado  no Tribunal de Justiça da Bahia, pela sua dedicação e integridade, Gabriel Saraiva foi personagem de diversas reportagens, entrevistas e do livro ‘A História de um Rádio-escuta’, do jornalista Oleone Coelho Fontes publicado na década de 1970.

Em janeiro de 1990 o centenário jornal Folha do Norte (117 anos) de  Feira de Santana, publicou  em página inteira ‘O Amigo do Rádio’, brilhante  reportagem de autoria do jornalista Marcelo Augusto Fonseca, relatando a história do lendário itapagipano. A matéria foi alvo de elogios e parabéns de muitos leitores, inclusive do grato e emocionado Gabriel Saraiva. Sem sermos exatos, foram cerca de cinco décadas de trabalho no rádio esportivo baiano desse fiel torcedor do Botafogo e devoto de São Roque e São Lázaro que foi casado com a senhora Noélia de Assis Lima e pai de Manoel Frederico e José Gabriel. O fato de desportistas das mais recentes gerações  pouco, ou até mesmo nada saberem sobre Gabriel Saraiva, falecido em 31.01.2022, é compreensível. Todavia isso não nos é permitido,  ou não podemos nos permitir a isso, como ele não se permitiria  se estivesse em nosso lugar! Saudades, professor!

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

terça-feira, 13 de maio de 2025

E assim surgiu o valoroso Rádio Esportivo feirense

Coluna Zadir Marques Porto

O futebol - esporte mais popular do Planeta -, pela sua extraordinária capacidade de atrair público está sempre presente nas páginas de jornais,  horários de rádio e televisão e, em outras mídias, com sucesso garantido.  Em Feira de Santana, o futebol amador desde a década de 1940 com o surgimento do Fluminense em 1941, para contrabalancear a força do Bahia de Feira, fundado em 1937, apresentou um crescimento compatível com o da cidade e as notícias deste esporte, como de outros, eram difundidas através dos serviços de alto-falantes instalados no centro da cidade.

Dudinha (Clarival Sousa) e seu irmão Miguelito (Miguel Sousa Filho), o Quarentinha, que começou jogando no Ypiranga local, foi profissionalizado pelo  Fluminense de Feira, Campeão Carioca pelo América em 1960 e posteriormente contratado pelo Fluminense do Rio de Janeiro, bem como o radialista Joel Magno, teriam sido os precursores de informativos do esporte através de alto-falantes, na  década de 1950. Todavia, no rádio o primeiro horário esportivo foi na Rádio Cultura, emissora instalada em portentosa sede própria, na Rua Geminiano Costa, centro da cidade, ao lado do extinto Feira Tênis Clube, hoje um moderno estabelecimento escolar do município.

Ivanito Rocha (Ivanito Raimundo de Lima Rocha) natural de Mairi, que era locutor e cantor da emissora, formou em 1956 o primeiro Departamento de Esportes do rádio local, também pioneiro em transmissões no antigo estádio Almachio Alves Boaventura, hoje Alberto Sampaio de Oliveira (Jóia da Princesa). Ivanito Rocha (narrador), Moacir Cerqueira (comentarista) e Raimundo Almeida - ‘Dinho’ (repórter) foi a inovadora equipe da extinta Rádio Cultura, que pertencia a um grupo de empresários/políticos tendo à frente Oscar Marques.

A Rádio Sociedade, fundada em 1948, dois anos mais velha que a Cultura, propôs a Ivanito a formação de uma Equipe de Esportes, o que ele aceitou com a condição ímpar de permanecer na Cultura e, apesar da contraproposta ser considerada absurda para a época, foi aceita. Assim, Ivanito Rocha comandava o esporte em duas emissoras tremendamente rivais. Graças a essa estratégia, ele revelou Edmundo de Carvalho Júnior- ‘Palito’ primeiro narrador da Sociedade, Marivaldo Bastos, Jair Cezarinho, Itajay Pedra Branca, Lúcio Bonfim e Ângelo Belmonte ‘Berô’.

Lembra Ivanito, hoje empresário com 89 anos de idade, ainda em plena atividade, que Edmundo de Carvalho nunca havia usado um microfone. ‘Donga Carvalho, seresteiro e treinador do Flamengo local, meu amigo, disse-me um dia que um sobrinho dele gostava de rádio, era Edmundo. Ainda muito jovem e sob a minha orientação, ele começou a narrar na Rádio Sociedade’. Depois, em função de suas múltiplas atividades, Ivanito Rocha deixou o rádio, pontuando sua passagem com uma significativa contribuição em especial na revelação de valores que vieram a se consagrar posteriormente.

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

A espetacular turma do Rádio!

Coluna Zadir Marques Porto

O comentarista esportivo ocupa uma importante função em uma equipe especializada, no papel de analista, em especial nas transmissões radiofônicas que, diferentemente das televisivas, não oferecem ao torcedor a oportunidade de acompanhar visualmente a movimentação dos jogadores em campo. Evidente que o narrador retrata o que está acontecendo, mas pela velocidade do jogo a intervenção do comentarista, com o necessário apoio do repórter de campo (ou repórteres) possibilita ao ouvinte uma ideia mais apurada do que fazem as duas equipes.

Há comentaristas e comentaristas, assim como narradores e repórteres, de diferentes estilos e linguagens, mas todos com o mesmo objetivo já dito. Mas nem sempre foi assim. Só no final da década 1920 as emissoras brasileiras passaram a dedicar maior atenção ao futebol. Em 1931 no campo do São Paulo, local conhecido como Floresta, a extinta Rádio Educadora Paulista transmitiu o jogo Seleção Paulista 6 x 2 Seleção Paranaense. O pioneiro foi Nicolau Tuma batizado de ‘Speaker metralhadora’. É que ele só, sem repórter nem comentarista, tinha que preencher todo o tempo de rádio durante o jogo falando ininterruptamente.

E um detalhe importante é que como as camisas não tinham numeração os atletas eram apresentados ao narrador, antes do jogo começar, para que o speaker os memorizasse! No jogo Brasil 3 x 2 Peru, em dezembro de 1936, pelo Campeonato Sul-Americano de futebol, em Buenos Aires, surgiu o comentarista esportivo: o gaúcho Ary Land, que ocupou o intervalo comentando pela Rádio Cruzeiro do Sul, de São Paulo. Até então os intervalos de primeiro para o segundo tempo eram preenchidos com música diretamente do estúdio! Portanto, Ary Land, natural do Rio Grande do Sul, foi o primeiro comentarista esportivo do Brasil! 

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista. 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Exclusivo: Arreliar ou apelidar era coisa comum!

 Coluna Zadir Marques Porto

O uso do nome de batismo nos atletas de futebol tornou-se tão comum como beber água.  É a modernidade que aflora em todos os setores da vida. Nas transmissões esportivas é exaustiva a repetição de nomes e em muitas ocasiões, numa mesma equipe, há tantos homônimos só diferenciados pelos sobrenomes. Todavia, o mais interessante é que quanto mais “xarás” aparecem a qualidade cai, ou para não ser ferino, não melhora. Isso é fruto principalmente das “escolinhas”, onde a gurizada é recebida e tratada pelo nome de registro..

              Nada contra isso, em hipótese alguma, mas talvez por fazer parte da “velha guarda”, lembro-me bem dos bons tempos, em que o narrador esportivo, enfatizava: Boquinha, Vermelho, Canhoto, Veludo, Mamoeiro, Ventilador, Beijoca, Pavão, Ladeira, Pitôco, Amaro Pipa, Baiaco, Borracha, Alemão, Fio, Cipó, Maromba, Hélio Abacate, Charuto, Russo, Ximbinha, Capitão, Merrinho, Chinesinho, Babá, Pinga, Manoelzinho, Garrincha, Canário, o eterno Pelé  e tantos outros.

             Pode ser apenas ilusão, ou “miolo de minhoca”, mas a impressão é que o futebol era mais democrático, mais popular e muito mais mágico. Hoje, os apelidos são até considerados "bullying" enquanto antes eram comuns dentro das famílias e nos babas. Arreliar ou apelidar era coisa comum! Evidente que alguns não gostavam do apelido e ai era fatal, pegava mesmo! Mas afora isso, apelido era coisa comum em uma época em que tudo era muito mais simples e agradável. Saudade dos apelidos e dos craques que os prognosticavam!

Zadir Marques Porto é jornalista e radialista.

"Minha neta, de apenas nove anos, enxergou o caos que é a Seleção Brasileira", afirma Cronista Esportivo

Coluna Zadir Marques Porto   Na final, sem a esperada e desejada presença da representação verde-amarela que, mais uma vez, foi um terrível ...